Mutilações
01/11/2026Amo escrever, embora, se pudesse, jamais escreveria. Temo não conseguir dizer o que desejo dizer. As palavras são poderosíssimas e, no entanto, falham diante das coisas mais simples. Apesar dessa ambivalência, sinto em mim uma enorme pulsão de externalizar o que penso.
Receio, ainda, abrir-me aos outros. Quando o faço, sinto-me despido de qualquer proteção. Vejo-me mutilado, com pedaços de mim desfigurados no olhar do outro. Esse medo atua nos confins mais primitivos da minha consciência.
No fundo, porém, desejo o outro e desejo ser reconhecido por ele. Minha mente, então, torna-se um campo de batalha entre duas forças contrárias, que se digladiam até que uma delas saia vitoriosa. Nos raros momentos em que esse desejo frágil escapa ileso, acabo publicando.
No entanto, quase sempre, o temor logo me retoma. Por isso, volto a me isolar em meu mundo interior. Isso explica por que, até hoje, não consegui publicar meus textos com regularidade. No momento em que os publico, arrependo-me amargamente e acabo por privá-los dos olhos alheios.
Mais uma vez, dou ouvidos à minha vontade de escrever e abro outro blogue. Não sei quanto tempo ele durará, mas gostaria de dizer que, se o faço, é por mim. Preciso aprender a lidar com meus demônios; do contrário, jamais conseguirei viver em paz.